segunda-feira, 2 de maio de 2011

Imposto

















Quando nasceste

no leito dum velho hospital
e choraste pela primeira vez
ainda nu
nas mãos de um médico,
a luva que ele usava,
muito custava
por causa dos muitos impostos

e digo-te mais
as fraldas encharcadas, por inteiras sujadas
desde a primeira, a mais barata e a mais cara,
não eram livres de impostos
Pelas balas chupadas,
chicletes mascados
E roupas compradas
Impostos nos são impostos

E na escola, a tesoura, a cola
Entre o ler e o escrever, o saber
Se aprende a conjugar o verbo pagar
Pagar! para estar em dia com os impostos

Sobre as minhas costas
Curvadas de velhas
As leis me são impostas
Sobre o teu sorriso
O chinelo de dedo
teu sonho, teu medo
Impostos te são impostos

Sobre tudo que pensas
Que ganhas, que cheiras
Respiras e sentes, pastas, dentes
Impostos te são impostos

Sobre o que já nem lembras
Sobre aquilo que dormes
Impostos foram impostos
Sobre aquilo que queimas,
Que escorre, que gruda
Que comes, que bebes,
Impostos já foram impostos

Sobre as gasolinas, mulheres
Meninas, danones, silicones
Ciclones, piscinas...
Impostos foram impostos...

Sobre a arma que atiras, o alvo que miras
Galinhas e patos, coelhos, macacos,
Impostos foram impostos

Por tudo que tens, carros, mulheres e bens
Cuecas, reféns, impostos foram impostos
Sobre essas linhas, vinhetas e vinhas, copos e cigarros
Ranhos, catarros, bombas de chocolate, tudo o que late
Que ladra e morde, sobre tudo e toda sorte
Impostos foram impostos

Se sentas em uma cadeira,
desde da madeira, impostos foram impostos
E o caminhão que a transporta,
desde a sua roda, impostos foram impostos
E o motorista e o pedágio na pista,
mais o combustível, e o empregado,
mais o dono da fábrica,
mais o preço de atacado, mais o lucro da loja,
mais a comissão do vendedor,
mais o preço do frete, impostos foram impostos

Impostores! Sempre impondo, impondo,
Impostos, impostos...
E de repente não pagas o IPTU,
e ficas sem-teto, carinho, afeto, na rua,
sob o olhar brutal da lua, livre de impostos
Com fome e frio, e ninguém te socorre, e morres,
e ninguém nem te viu...
Mas saibas que teu corpo ali no chão,
se ganhares um caixão, caixinha, ou caixota
As flores e o cimento, e choro e as velas,
pagarão teus últimos impostos!

Um comentário:

  1. Rsrsrsrs é um olhar sistemático sobre as coisas.
    Se formos pensar nos impostos, a vida perde a poesia, mas heis que surge alguém que faz poesia com os impostos!

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